“Tragam para mim”: quando o pouco é colocado nas mãos de Jesus

“Nós só temos aqui cinco pães e dois peixes.
Então Jesus disse: Tragam isso aqui para mim.”
Mateus 14.17–18

Você já recebeu uma notícia que tirou o chão? Uma daquelas notícias que fazem o mundo parar e despertam a vontade de ficar sozinho, afastar-se das pessoas e procurar um lugar silencioso?

É possível que essa pergunta toque em uma ferida que ainda não cicatrizou. Todos nós, em diferentes momentos da vida, conhecemos a sensação de não ter palavras, forças ou respostas suficientes.

É nesse cenário que começa o relato de Mateus 14.13–21. Jesus havia acabado de receber a notícia da morte de João Batista. Mateus não descreve detalhadamente tudo o que Jesus sentiu, mas registra que, ao saber do acontecido, ele entrou em um barco e foi sozinho para um lugar deserto.

Jesus procurou o silêncio, mas encontrou uma multidão.

Uma compaixão que se transforma em cuidado

Quando Jesus desembarcou e viu aquelas pessoas, foi tomado de compaixão e curou os doentes.

Compaixão, aqui, não significa apenas sentir pena. Não é um sentimento distante, que observa o sofrimento sem fazer nada. A compaixão de Jesus o movimenta em direção às pessoas. Ele enxerga suas necessidades e age para acolhê-las.

Mesmo diante da notícia da morte de João Batista, Jesus não foi indiferente ao sofrimento daquela multidão. Isso também nos revela algo sobre a maneira como Deus olha para nós.

Às vezes pensamos que nossos problemas não são importantes o suficiente para serem apresentados ao Senhor. Dizemos para nós mesmos: “Há pessoas sofrendo mais”, “Isso não é tão grave” ou “Eu consigo resolver sozinho”.

O Evangelho, porém, mostra que Jesus não fecha os ouvidos às nossas angústias. Ele enxerga nossas necessidades e vem ao nosso encontro com cuidado, misericórdia e compaixão.

Dois banquetes e dois modos de reinar

A multiplicação dos pães aparece logo depois de outra refeição: o banquete de aniversário de Herodes.

Na festa de Herodes havia boa comida, vinho, música e entretenimento. Contudo, no meio daquela aparente abundância, também havia vaidade, manipulação, medo, abuso e morte. Para preservar sua honra diante dos convidados, Herodes ordenou a morte de João Batista.

Na refeição organizada por Jesus, o cenário era completamente diferente. Não havia pratos sofisticados. Havia apenas cinco pães, dois peixes e uma multidão necessitada. Apesar da aparente escassez, naquele lugar havia misericórdia, acolhimento, cura e vida.

Herodes preparou um banquete para si mesmo. Jesus preparou uma refeição para os outros.

Herodes preservou sua honra tirando uma vida. Jesus entregaria sua própria vida para salvar os pecadores.

Assim, Mateus nos apresenta dois modos de exercer poder. De um lado, está o poder que serve a si mesmo e utiliza as pessoas. Do outro, está o reinado de Cristo, no qual o Rei se aproxima, acolhe, alimenta e entrega a própria vida por seus súditos.

“Deem vocês comida a eles”

Quando o dia começou a terminar, os discípulos perceberam um problema: a multidão era numerosa, o lugar era deserto e não havia alimento suficiente.

A solução apresentada por eles parecia bastante razoável:

“Mande esta gente embora, a fim de que vão aos povoados e comprem alguma coisa para comer.”

A resposta de Jesus deve ter causado espanto:

“Eles não precisam ir embora. Deem vocês mesmos comida a eles.”

Os discípulos olharam para a multidão e, em seguida, para aquilo que possuíam: cinco pães e dois peixes.

Humanamente falando, não era suficiente.

Essa experiência não está distante de nós. Quantas vezes olhamos para uma necessidade e pensamos:

“Eu não tenho tempo suficiente.”

“Não tenho os recursos necessários.”

“Não tenho experiência.”

“Não sei o que dizer.”

“Não sou capaz de fazer isso.”

O problema dos discípulos não estava em reconhecer sua limitação. Eles realmente não tinham condições de alimentar aquela multidão. O problema começaria se imaginassem que tudo dependia exclusivamente deles.

Jesus não ordenou que fabricassem uma abundância que não possuíam. Também não pediu que escondessem sua insuficiência. Ele simplesmente perguntou, por meio daquela situação: “O que vocês têm?”

Então veio o convite:

“Tragam para mim.”

A questão não é somente quanto temos

Os discípulos tinham pouco. Jesus não negou essa realidade. Contudo, o pouco foi colocado nas mãos daquele que podia alimentar a multidão.

A questão central não era apenas quanto havia nas mãos dos discípulos, mas em que mãos eles colocariam aquilo que possuíam.

Jesus pegou os pães e os peixes, deu graças, partiu-os e os entregou aos discípulos. Os discípulos, por sua vez, repartiram o alimento com a multidão. Todos comeram, ficaram satisfeitos e ainda sobraram doze cestos.

O alimento continuava sendo de Jesus. A abundância vinha de Jesus. O milagre era obra de Jesus. Ainda assim, ele decidiu servir a multidão por meio das mãos dos discípulos.

Assim também acontece na missão da Igreja. A missão não nasce de nossa criatividade ou capacidade. Ela pertence ao Senhor. Cristo, porém, chama sua Igreja para participar daquilo que ele está realizando.

Ele nos concede tempo, dons, recursos e oportunidades. Depois, utiliza aquilo que recebemos para cuidar de pessoas, amparar os aflitos, consolar os enlutados, ensinar sua Palavra e levar seu perdão.

A Igreja é chamada a repartir aquilo que recebe de Cristo.

Quando não sabemos o que dizer

Em algum momento, todos nós estaremos ao lado de alguém que sofre.

Nessas ocasiões, podemos pensar: “Não tenho palavras”, “Não sei como ajudar” ou “Não posso resolver essa situação”.

De fato, não podemos resolver todas as dores. Não conseguimos retirar o luto, apagar o passado ou responder a todas as perguntas. Contudo, Deus pode utilizar nossa presença, nossa escuta, nossa oração e a promessa de sua Palavra.

Ele pode utilizar uma visita, uma refeição, uma mensagem, um abraço respeitoso ou alguns minutos de atenção.

Não precisamos fingir que somos suficientes. Somos convidados a colocar diante de Cristo aquilo que recebemos e confiar que ele poderá usá-lo para cuidar de alguém.

Antes de nos enviar, Jesus nos alimenta

Essa história não fala somente sobre o que devemos entregar. Antes de qualquer chamado, ela mostra aquilo que Jesus nos oferece.

Nós também nos aproximamos dele com mãos vazias. Levamos nossas limitações, angústias e pecados. Não temos como produzir por nós mesmos o perdão, a reconciliação ou a vida eterna.

Cristo, porém, tomou nossos pecados sobre si e os carregou na cruz. Herodes tirou a vida de João para preservar sua honra. Jesus entregou sua vida para salvar os pecadores.

Por isso, Jesus não alimenta apenas o corpo. Ele alimenta nosso coração com sua Palavra, fortalece-nos com suas promessas e, na Santa Ceia, oferece seu verdadeiro corpo e sangue para perdão e fortalecimento da fé.

O Rei Jesus não nos oferece apenas aquilo que conseguimos produzir. Ele nos serve com aquilo que pertence a ele: sua graça, seu perdão e sua vida.

Tragam para mim

Talvez hoje você se identifique com a multidão: cansado, angustiado ou necessitado de cuidado.

Talvez se identifique com os discípulos: diante de uma grande necessidade, mas com a sensação de possuir recursos pequenos demais.

Nas duas situações, o convite permanece o mesmo:

“Tragam para mim.”

Leve ao Senhor as angústias que pesam sobre seu coração. Leve suas preocupações, seus pecados e aquilo que você não consegue resolver.

Leve também seu tempo, seus dons, seus recursos e sua disposição para servir. Não porque sejam suficientes em si mesmos, mas porque foram colocados nas mãos de Cristo.

A missão continua sendo do Senhor. Ele cuida, sustenta e preserva sua Igreja. Ao mesmo tempo, concede-nos a alegria de participar de sua obra e de repartir com outras pessoas aquilo que primeiro recebemos dele.

Nas mãos dos discípulos havia pouco. Nas mãos de Jesus houve alimento para todos e ainda sobraram doze cestos.

A questão não é somente quanto temos nas mãos. A questão é em que mãos colocamos aquilo que temos.

Perguntas para reflexão

  1. Que situação recente fez você desejar afastar-se ou procurar um “lugar deserto”?
  2. Você costuma considerar seus problemas pequenos demais para serem apresentados a Deus? O que o texto revela sobre a compaixão de Jesus?
  3. Em quais situações sua primeira reação é dizer “mande essa gente embora”, evitando uma necessidade que parece grande demais?
  4. Quais são hoje os seus “cinco pães e dois peixes”: tempo, dons, recursos, conhecimentos ou oportunidades que parecem insuficientes?
  5. Você tem escondido suas limitações, tentando parecer autossuficiente, ou as tem colocado sinceramente diante de Cristo?
  6. Qual é a diferença entre acreditar que toda a missão depende de nós e reconhecer que Cristo realiza sua obra por meio de nós?
  7. Como Deus pode utilizar sua presença, sua escuta e sua oração para cuidar de alguém que está sofrendo?
  8. O que a comparação entre o banquete de Herodes e a refeição de Jesus ensina sobre poder, liderança e serviço?
  9. Antes de pedir algo de você, o que Jesus já lhe concedeu por meio de sua Palavra, do Batismo e da Santa Ceia?
  10. Que situação concreta você deseja colocar hoje nas mãos de Jesus?

Oração

Senhor Jesus, muitas vezes olhamos para nossas mãos e enxergamos apenas aquilo que nos falta. Ensina-nos a confiar em tua compaixão e a colocar diante de ti nossas dores, pecados, dons e limitações. Alimenta-nos com tua Palavra, fortalece-nos com teu perdão e utiliza-nos como instrumentos do teu cuidado. Que nunca nos esqueçamos de que a missão é tua e de que tudo o que temos foi primeiro recebido de tuas mãos. Amém.

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