A Verdade Salvadora: minha leitura e destaques
“Jesus sim, Igreja não.” Talvez você já tenha dito isso. Ou ouvido de alguém que você ama.
Para muita gente, ir à igreja ficou opcional. Alguns de fato se afastam por terem se machucado e ainda mantém algum tipo de ferida… às vezes é algum escândalos que presenciaram… alguma divisão na igreja… alguma sobrecarga, cansaço. As razões são inúmeras… Mas o que não podemos deixar de olhar, que todos os domingos confessamos no Credo: “creio na Santa Igreja Cristã”. Como assim? Como essa Igreja é Santa? Essa é uma das perguntas que um livro recém-lançado em português nos ajuda a pensar. O livro se chama A Verdade Salvadora: Doutrina para o Povo de Deus, de Kurt E. Marquart.
Marquart responde a isso sem rodeios, no último capítulo sobre Igreja, Marquart diz que tornar-se cristão é tornar-se membro da Igreja, e não há como separar uma coisa da outra. “Abandonar a Igreja de Cristo é também abandonar o seu Senhor e Salvador.” Num primeiro momento isso pode causar estranheza, mas ao longo do livro o autor enfatiza que é na Igreja que Cristo continua vindo até nós, pela Palavra e pelos Sacramentos.
Quero convidar a entrar um pouco neste livro: quem foi o autor, como o livro surgiu, o que ele percorre e, com mais calma, o capítulo sobre a Santa Igreja nos céus e na terra.
Quem foi Kurt Marquart
Kurt Erik Marquart nasceu em 1934, em Tallinn, na Estônia. Formou-se no Seminário Concórdia de St. Louis, nos Estados Unidos, em 1959. Foi pastor de congregações luteranas em Weatherford, no Texas, e em Queensland, na Austrália, onde viveu cerca de catorze anos.
Em 1975, passou a integrar o corpo docente do Seminário Teológico Concórdia, em Fort Wayne, onde ensinou Teologia Sistemática por mais de trinta anos. Faleceu em 19 de setembro de 2006, aos 72 anos.
Logo no prefácio, Preus afirma dizendo que quem conviveu com ele costuma destacar que Marquart escrevia do jeito que falava. Por isso a leitura é, ao mesmo tempo, acessível e profunda.
Como o livro surgiu
A Verdade Salvadora é um livro póstumo. Marquart deixou muitos escritos que não haviam sido publicados e a Luther Academy, nos Estados Unidos, decidiu reuni-los numa série. O primeiro volume saiu em 2016, com o título The Saving Truth: Doctrine for Laypeople, organizado por Ken Schurb e Robert Paul.
O subtítulo em português ficou “Doutrina para o Povo de Deus”. Aqui já vai uma recomendação… o livro não foi pensado para especialistas. Foi pensado para a congregação e aqueles que querem refletir sobre aquilo que como Igreja confessamos. Não chega a ser carregada de termos teológicos, mas é uma maneira leve de se apropriar de várias reflexões importantes da Doutrina Cristã.
Caso alguém queira adquirir.. esse livro foi lançado agora 2026, pela Editora Concórdia, com tradução do pastor Ismael Verdin.
Um passeio pelo livro
O livro percorre os grandes artigos da fé cristã.
O primeiro aspecto que destacado é a Estrutura pelo qual o livro foi organizado.
Outro destaque é que ao longo de cada capítulo, Marquart antecipa objeções e mal-entendidos comuns que frequentemente surgem na discussão de cada tema
A Escritura. O livro começa com Hebreus 1.1-2 (Hb 1.1-2): Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras pelos profetas, mas nestes últimos dias falou pelo Filho. Cristo não é apenas mais um mensageiro. Ele é o conteúdo da Escritura. Por isso Lutero perguntava: se você tirar Cristo das Escrituras, o que vai sobrar?
A partir daí, Marquart trata da inspiração, da inerrância, do cânon e do princípio sola Scriptura. Ele conta um episódio da Dieta de Augsburgo, em 1530. Depois da leitura da Confissão de Augsburgo, um duque da Baviera perguntou a João Eck, o grande opositor de Lutero, se ele conseguiria refutar aquilo. Eck respondeu que conseguiria com os pais da Igreja, mas não com as Escrituras. E o duque concluiu: “Então os luteranos estão assentados sobre as Escrituras, e nós, ao lado delas.”
Uma das distinções mais úteis do livro aparece aqui: a razão como serva e a razão como senhora. Precisamos da razão para entender gramática, lógica, contexto. Isso é a razão servindo. O problema começa quando a razão se coloca como juíza da Palavra de Deus. Aí, diz Marquart, os papéis se invertem: o pecador senta na cadeira do juiz e a Palavra de Deus vai para o banco dos réus.
Ainda sobre a Sagrada Escritura, ele fala com clareza sobre o dano causado quando se rebaixa a Escritura da condição de ser a Palavra de Deus à de meramente conter a Palavra de Deus.
O Deus vivo. No capítulo de Robert Preus, conhecer a Deus não é apenas acumular informações sobre ele. É um conhecimento de confiança, como Paulo diz: “eu sei em quem tenho crido” (2Tm 1.12). Mas também não é um sentimento vazio de conteúdo. A pergunta do capítulo é: como alguém pode conhecer a Deus sem saber nada sobre ele? E a resposta é clara: Deus é conhecido em Cristo, e Cristo nos fala pela sua Palavra.
A encarnação. Jesus não é meio Deus e meio homem, como os semideuses das mitologias. Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, uma só pessoa. Marquart lembra o hino de Natal de Lutero: aquele que os céus não podem conter repousa no colo de Maria.
Justificação e santificação. Justificação é Deus nos declarar justos por causa de Cristo. Vem de fora de nós, é completa e não oscila conforme a força da nossa fé. A fé, diz Lutero, é a mão do mendigo que se estende para receber o presente.
A santificação é a vida nova que Deus opera em nós, com altos e baixos, crescendo. E há uma imagem bonita sobre as boas obras: as crianças não amam a mãe contando quantas refeições ela serviu. Elas amam porque foram amadas primeiro.
Aqui vai um ponto interessante de Marquart.. Ele usa imagens acessíveis para que temas bíblicos profundos sejam melhor compreendidos.
Lei e Evangelho. A Lei exige, o Evangelho dá. Os aflitos devem ser consolados com o Evangelho, e os acomodados confrontados com a Lei. Marquart compara a Lei ao diagnóstico de um médico: ninguém é curado pelo diagnóstico, mas nenhum médico sério receita sem diagnosticar. O objetivo é sempre a cura.
Os meios da graça. Talvez a imagem mais memorável do livro: o Evangelho é como a diferença entre uma carta e um cheque. A carta promete. O cheque entrega. O Evangelho não apenas informa sobre o perdão. Ele entrega o perdão. E Lutero faz uma distinção decisiva: na cruz, Cristo conquistou o perdão; na Palavra e nos Sacramentos, ele o distribui.
O Batismo e a Santa Ceia. O livro trata o Batismo com cuidado bíblico e pastoral: Marquart antecipa objeções que muitos levantam contra a prática do batismo infantil. Ele oferece claro apoio a essa prática mediante numerosas comprovações bíblicas, ao mesmo tempo que identifica o verdadeiro problema de uma concepção que atribui pouco valor ao batismo. E Marquart chega a dizer que cada bebê batizado é um milagre maior do que a ressurreição de Lázaro. Lázaro voltou à vida para morrer de novo. O Batismo dá vida eterna.
Na sequência, há um capítulo dedicado à Santa Ceia.
A Santa Igreja nos céus e na terra
Pessoal, mas nunca privada. Marquart abre o capítulo com um contraste. A fé cristã é profundamente pessoal, mas nunca é um assunto privado, um relacionamento só entre eu e Deus. Pedro diz que somos raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo que pertence a Deus (1Pe 2.9). Paulo diz que somos membros da família de Deus (Ef 2.19). E até a oração que Jesus nos ensinou começa no plural: “Pai nosso“.
Isso desafia uma ideia muito comum hoje: a de que a Igreja seria um acessório opcional, algo que talvez venha depois que a pessoa já resolveu sua vida com Jesus. Para Marquart, é justamente o contrário. Jesus se identifica tanto com a sua Igreja que, quando Saulo persegue os cristãos, ouve do céu: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” (At 9.4). Quem despreza a Igreja, despreza o próprio Senhor (Lc 10.16).
De cima para baixo. A Igreja não nasce de baixo para cima, mas de cima para baixo. Ela não é uma associação voluntária de pessoas com interesses parecidos, como um clube ou uma ONG. Ela é obra de Deus. É o céu tocando a terra. E as pessoas são acrescentadas a ela não por estratégia humana, mas pelo próprio Deus, à medida que o Evangelho é pregado e os Sacramentos são administrados.
Se a Palavra e os Sacramentos fossem só lembretes, símbolos de algo que se recebe em outro lugar, então o culto seria mesmo apenas uma aula de teologia… ou assuntos sobre ética e moral. Mas, se o Evangelho e os Sacramentos são de fato fonte de vida, e se nós continuamos sendo pecadores necessitados de misericórdia, então tudo muda.
A Igreja, diz Marquart, é algo indispensável de suporte à vida do cristão. Então, somos enviados para o mundo, para a família, o trabalho, a vizinhança. Mas somos enviados a partir do lugar onde Deus nos alimenta.
Por que vale a pena ler
Num tempo em que muitos dizem “Jesus sim, Igreja não”, este capítulo nos devolve uma verdade simples e consoladora. A Igreja não é, antes de tudo, aquilo que nós fazemos por Deus. É o lugar onde Deus continua fazendo algo por nós. É ali que Cristo, o Bom Pastor, fala, perdoa, lava e alimenta as suas ovelhas. Mesmo quando o que vemos é fraqueza, cremos naquilo que Deus prometeu.
Se você é membro da congregação, este livro é um ótimo companheiro para aprofundar o que você confessa todo domingo. Se você está conhecendo a fé cristã agora, ele é uma introdução clara, honesta e bíblica. E se você é professor de Escola Bíblica, líder de algum grupo, ele é um excelente material de estudo.
Que Deus abençoe a sua leitura.

